| Segunda-feira,
26 de junho de 2000
Empresa
agora quer ouvir o cliente
Serviço
de atendimento ao consumidor é cada vez mais usado para tornar o freguês
fiel
Foto
de Leonardo Lemos
Através do serviço de atendimento aos clientes, o SAC, as empresas sabem
o que acontece de errado com seus produtos e serviços. A última pesquisa
realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em
1998, mostrava que cerca de 1.500 empresas brasileiras já dispunham de
um SAC. Além de algumas linhas telefônicas, correio eletrônico e ombudsman
para resolver os problemas, a estrutura para se manter uma linha direta
com o consumidor não exige gastos significativos e ainda pode trazer lucros
para o "resto da vida", como explica Antonio César Carvalho de Oliveira,
consultor de marketing da Assessoria Comercial Personalizada (Acomp).
"A
empresa tem que pensar na vida útil que o consumidor pode ter, e não só
naquela venda imediata", afirma o consultor. Ou seja, mesmo que a reclamação
de um consumidor obrigue a empresa a ressarci-lo, lucra-se mais pois manter
um cliente é cinco vezes mais barato do que conquistar um novo.
Um exemplo disso é a fabricante de eletrodomésticos de linha branca Multibrás
(leia-se Brastemp e Consul). Seu SAC foi montado há 15 anos, mas só no
fim de 1998 começou realmente a se preocupar com o serviço, instalando
um call center com ligação gratuita. "O consumidor de hoje é bem
mais exigente que o de 15 anos atrás. Hoje ele já descobriu o Procon",
diz Eduardo Terra, gerente geral de Assistência ao Consumidor.
Liderança
- A empresa conseguiu se manter líder no segmento, com 32% de participação,
mesmo depois das gigantes mundiais GE, Bosch e Eletrolux entrarem no mercado
nacional, há cerca de quatro anos. Em dois anos, os investimentos no projeto
de call center representaram 1% da venda líquida da Multibrás,
sendo que os gastos com cada chamada custam, em média, R$ 3. "Quanto mais
chamadas a gente recebe, mais a gente gasta, mas vale a pena, pois o serviço
é hoje uma de nossas guias de sustentação", explica Terra. Depois que
foi instalado o 0800, os consumidores passaram a ligar não só para reclamar,
como também para dar sugestões, que equivalem a 46% das ligações.
Por enquanto, o serviço de atendimento ao cliente, que inclui o 0800 e
assistência pessoal, está limitado a São Paulo, Rio, Vitória, Recife,
Salvador, Campinas, Blumenau, Joinville e Curitiba. "Vamos expandir para
as principais capitais do país. Ainda vamos investir muito mais", completa
o gerente geral.
Sugestão
- A fabricante de pães Wickbold ganhou um novo produto através de
seu serviço de atendimento ao consumidor. O Fatias foi sugestão
de um cliente solteiro, que não conseguia comer um pacote inteiro antes
que o pão ficasse velho. "Então percebemos que esse era um nicho que poderíamos
explorar, que a idéia de fazer uma embalagem com menos unidades fazia
sentido", explica Telma Wickbold, gerente de marketing da empresa.
O produto hoje está com venda estável, compatível com os planos da empresa.
Há 10 anos o serviço existe, mas foi nos últimos três anos que ele começou
a alavancar, crescendo mais de 50%, tanto em número de chamadas quanto
em investimentos.
Até a centenária Casa Granado tem um Serviço de Atendimento ao Cliente.
Há cinco anos, a fabricante de produtos de higiene mudou de dono, se modernizou
e começou a arrumar a casa. "O SAC foi logo instalado, para saber
o que o consumidor estava achando das mudanças", explica Denise Assis,
gerente de produto.
Todo mês as sugestões e reclamações, acima de um determinado número (não
divulgado) são analisadas pela gerência. "Nascem novos produtos, novas
embalagens, como o sabonete líquido para bebê. Dá para perceber que as
vendas aumentam, ainda que não dê para destacar o crescimento quantitativo",
diz Assis. "O serviço não é para apagar incêndio, mas para criar um vínculo
com o cliente", conclui o consultor da Acomp.
Cliente
quer atenção
"O
consumidor quer, antes de tudo, que a empresa reconheça que errou", explica
o consultor Antônio Carvalho de Oliveira, da Assessoria Comercial Personalizada
(Acomp). A definição do comportamento das pessoas é padrão, de acordo
com os especialistas em SACs entrevistados: o consumidor quer atenção.
A dona-de-casa Sandra Ribeiro Macedo é um bom exemplo da vantagem do SAC
para a empresa. Ela só conseguiu recuperar o material de construção da
sua casa, comprado há dez anos na Casa Show, através do SAC da Sendas.
"Eu parei a obra da minha casa porque o engenheiro tinha abandonado. O
vendedor da Casa Show disse que eu podia deixar meu material de construção
na loja, já que estava pago, enquanto as obras não fossem retomadas. Oito
meses depois eu pedi para retirá-lo e não consegui. Só em 1998 eu recuperei
tudo, 26 latas de massa, louças para o banheiro, 18 latas de tinta, tudo
da melhor qualidade, graças à Bet Braga (ombudsman da Sendas),
minha fada madrinha."
A dona-de-casa não tem o hábito de ligar para os serviços de atendimento
ao cliente, mas sua experiência com o serviço da Casa Show reverteu sua
opinião sobre a loja, tornando-a uma cliente fiel. "A próxima obra que
fizer, vou comprar tudo lá, pois sei que vão resolver meus problemas."
A Casa Sendas montou seu SAC há dois anos e já sofreu algumas transformações
graças aos consumidores. A loja de Petrópolis ganhou um relógio, a do
Leblon, um espelho convexo para o estacionamento e as embalagens do bolo
Marca Própria foram modificadas. São sete mil ligações por mês. "O cliente
fica feliz em saber que mudou alguma coisa no supermercado, ele conta
para todo mundo. É uma terapia", diz Bet Braga.
"O
consumidor brasileiro quer colo. Ele liga para cá e conta do filho, do
cachorro, da sogra. A gente fica até na dúvida de qual é a reclamação",
completa Eduardo Terra, gerente-geral de assistência ao consumidor da
Multibrás. Terra conta que já mandou um técnico com sapatilha branca e
luva descartável na casa de uma cliente por exigência dela. "A gente obedece."
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