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Domingo, 22 e segunda-feira,
23 de Julho de 2001
Jornal
do Lojista
Fechamento
sem traumas
Com planejamento, é possível reduzir prejuízo na
hora de cerrar as portas
Patrisia Ciancio
Quem já passou pela experiência, garante: o custo para fechar as portas
é muito mais alto que o da abertura da empresa. Mas, se não há outro jeito,
a melhor saída é administrar o problema e substituir o desespero pelo
planejamento. Vale tudo para tentar reduzir o prejuízo, o que não dispensa
a tradicional queima de estoque e a ajuda de concorrentes.
Se a abertura da loja requer cuidados e avaliação criteriosa de detalhes,
o mesmo deve ser observado quando a decisão é cerrar as portas. Também
nessa hora, a pior inimiga é a ansiedade.
E como fazer da concorrência a melhor aliada? O comerciante Salvador Rosário
tem a resposta.
Atualmente dono de uma casa de móveis de madeira em Niterói, ele conseguiu
mudar de ramo e salvar parte do investimento graças à venda do estoque
e dos equipamentos da antiga loja para o proprietário de um comércio vizinho.
Antes de os problemas começarem, o empresário vendia janelas, portas e
móveis de ferro, de fabricação própria. Na tentativa de ampliar o lucro,
decidiu aproveitar melhor o espaço da loja montando, no mesmo local, um
comércio de autopeças. Em alguns meses, o que parecia uma alternativa
rentável tornou-se um entrave.
Capital de giro
Como a comercialização de peças de automóveis exige mais recursos, sobretudo
para a compra de estoque, Rosário viu-se sem outra alternativa que não
a utilização do capital de giro da loja de móveis de ferro para atender
a essa necessidade. Resultado: as duas atividades afundaram.
Ao perceber que não tinha outra escolha senão fechar a autopeças, Rosário
procurou um comerciante do mesmo ramo e vendeu todo o estoque, com um
desconto de 50%. Foi o suficiente para equilibrar as contas. Mas a história
não acabou aí. Com o tempo, o negócio de móveis de ferro também foi enfraquecendo.
Mais atento depois do fechamento da loja de autopeças, o comerciante outra
vez recorreu a um concorrente, vendeu toda a matéria-prima estocada e
os equipamentos e, com o dinheiro que conseguiu, montou a loja de móveis
de madeira.
Rosário diz que, com tantas decisões a tomar, não se pode esquecer de
priorizar o que vai ser pago antes de fechar um negócio ou mudar de área
de atuação. Antes de tudo, o comerciante regularizou a situação dos funcionários.
Uma decisão mais que acertada, na opinião do presidente da Associação
Brasileira de Lojistas de Shopping Centers (Alshop), Nabil Sahyoun. Para
ele, tudo pode esperar, exceto o lado humano do negócio.
- Deve-se pagar primeiro os colaboradores. Esta é a forma de respeitar
aquele que esteve ao seu lado o tempo todo. Com os fornecedores, pode-se
tentar negociar. Depois vêm os impostos, nem tão urgentes quanto o trabalhador,
que tem família para sustentar. É a maneira mais honesta de fechar as
portas - defende.
Na avaliação do consultor Antônio César Carvalho de Oliveira, da Acomp
Consultoria e Treinamento, o grande erro de Rosário foi ter investido
em uma área que não dominava. Mas o desvio de rota foi corrigido em tempo.
Perceber a inviabilidade do negócio de autopeças, recorrer à concorrência
para reduzir o prejuízo com o estoque e optar por um novo empreendimento
em uma área semelhante a que já dominava foram decisões acertadas.
- Ele iria acabar com tudo se tivesse insistido naquilo que não conhece.
Mas fez bem ao mudar para um negócio do mesmo ramo. Assim, conseguiu aproveitar,
inclusive, a clientela - analisa Oliveira.
Após a dupla experiência e, hoje, estabilizado no negócio que decidiu
abraçar, Rosário sugere a quem está pensando em abrir uma loja fazer amplo
planejamento de atuação, sem esquecer da necessidade de ter uma reserva
de capital. "A compra é certa, mas a venda não. Contar somente com a venda
para liquidar despesas é muito arriscado", adverte.
Erro sem volta
Nem sempre, porém, é possível salvar o investimento - ou parte dele, como
fez Rosário. Um lojista do setor de alimentos, que não quis ser identificado,
conta que era proprietário de um espaço em Duque de Caxias e, como não
tinha intenção de alugá-lo, resolveu abrir uma pequena mercearia, que
era também uma espécie de bar e lanchonete. Dois erros levaram-no a ter
que fechar as portas. O primeiro, estocar produtos que não tinham muita
saída na região. O segundo, uma prática tão comum quanto perigosa: a venda
fiada, que rendeu significativos calotes ao lojista.
Diante da necessidade de fechar as portas, a primeira tentativa do comerciante
foi alugar o ponto com todas as mercadorias e equipamentos. Conseguiu,
mas não resolveu. Foi como ter passado o problema adiante, já que os inquilinos,
que enfrentaram as mesmas dificuldades, não pagavam o aluguel. Para evitar
um prejuízo ainda maior, a saída foi acabar com o negócio. Nem a venda
de parte do estoque, dois balcões e o fogão foram suficientes para sanar
as dívidas.
- Talvez o lojista tivesse melhor resultado se vendesse o ponto, com todos
os equipamentos e estoque - opina Oliveira, da Acomp. Para o consultor,
esta é a melhor atitude quando o imóvel é próprio. "Quanto mais se fragmenta,
mais o negócio perde valor", sentencia. Na hora de encerrar atividades
Dicas
>> Constatado que não há outro jeito se não fechar a empresa, o primeiro
passo é manter a calma e agir com tranqüilidade, para não aumentar ainda
mais o prejuízo. Há grande possibilidade de perder dinheiro se o lojista
não souber aproveitar o que tem no seu comércio.
>> É preciso fazer um levantamento de todo o estoque para poder aproveitar
o máximo possível. Tudo tem valor no mercado, basta ir ao lugar certo
e ter paciência.
>> Um cronograma de atividades a serem cumpridas até o fechamento também
ajuda. Assim, o comerciante pode distribuir tarefas. Vale até oferecer
para o funcionário uma comissão na venda do estoque.
>> Neste momento, é hora de pesquisar, na Junta Comercial, empresas que
estão sendo abertas e têm afinidade com o seu negócio. Elas são potenciais
compradoras dos equipamentos e estoque, da mesma forma que os atacadistas.
>> Mesmo que o valor da venda do estoque seja inferior ao do investimento
realizado, o lojista deve fazer de tudo para se livrar do encalhe.
>> É importante priorizar o que será feito com o dinheiro obtido na venda
do estoque e dos equipamentos: liquidar dívidas com os funcionários, fazer
acertos contábeis e legalizar a situação financeira e tributária da empresa.
A papelada
>> Na Junta Comercial
Certidão negativa do INSS
Certidão do Fundo de Garantia (FGTS)
Se a empresa não tiver débito, as certidões poderão ser retiradas via
Internet, nos endereços www.previdenciasocial.gov.br (INSS) e www.caixa.gov.br
(FGTS)
>> Na Receita Federal
Documento Básico de Entrada
(DBE)
CIC e RG dos sócios
Certidões do INSS e do FGTS
Via do contrato social, já autenticado pela Junta Comercial
>> Na Secretaria Estadual da Fazenda
Deca (Declaração Cadastral) preenchido
Talões de notas - o último utilizado e os que ficaram em branco
Cópias do CIC e RG dos sócios, autenticadas
Última Dipam (Declaração Anual de Movimentação da Empresa)
>> Na Prefeitura
GDC (Guia de Dados Cadastrais) preenchido
Secretaria da Desburocratização
Presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping Centers (Alshop),
Nabil Sahyoun gostaria que existisse, no País, uma Secretaria da Desburocratização,
para facilitar os encargos do fechamento. "O processo de fechamento de
firma é muito complicado. Tanto que as pessoas, antes mesmo de abrir a
empresa, já pensam nos problemas e nos gastos que terão caso precisem
fechá-la."
De acordo com o contador Carlos Piccinin, além de o processo ser lento,
na maioria dos casos, muitos lojistas não têm a documentação organizada
na hora de cumprir as exigências dos órgãos do Governo. Por conta disso,
há pedidos de fechamento que duram anos. "Quando os documentos estão em
ordem, o processo varia de dois a três meses", afirma.
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